Existe um antigo provérbio africano que diz: “Quando os elefantes brigam, quem mais sofre é a grama que está embaixo deles.”
A imagem é perfeita. Os elefantes são enormes. Disputam território. Medem forças. Empurram-se. Mas quem termina esmagada é a grama, que não participou da briga e não tem força para separar os elefantes. E, depois do que vimos ontem no plenário do Supremo Tribunal Federal, esta metáfora nunca foi tão atual.
O país esperava uma resposta sobre a possibilidade de investigar Alexandre de Moraes por sua relação com Daniel Vorcaro. Mas o mérito nem chegou a ser analisado. Durante horas, assistimos aos próprios ministros discutindo entre si sobre competências, relatorias, procedimentos e sobre quem deveria investigar quem.
Gilmar Mendes questionou duramente a condução de Mendonça no caso Master. Mendonça reagiu, classificou as acusações feitas contra ele como levianas e exigiu respeito. Aquilo que deveria ser uma divergência jurídica transformou-se numa troca pública de acusações entre dois ministros da mais alta Corte do país.
E não terminou aí. Flávio Dino também confrontou a condução do presidente Edson Fachin. Questionou a decisão de Fachin de assumir relatorias envolvendo Moraes e Mendonça, argumentando que ministros do Supremo são iguais entre si e que determinadas prerrogativas atribuídas à Presidência não estariam previstas nas normas que regem a Corte. Fachin discordou. Dino defendeu juntar os casos de Moraes e Mendonça. Fachin sustentou que deveriam permanecer separados. E, quando o placar parcial indicava que poderia haver um empate jurídico, Dino pediu vista.
Resultado? A decisão foi adiada.
E, enquanto os elefantes brigam em Brasília... a grama continua lá embaixo. E a grama somos nós. É o brasileiro se perguntando: em que Brasil eu terei de viver? É o brasileiro que, provavelmente, não sabe quem tem razão entre Fachin e Dino, Gilmar e Mendonça, Moraes e seus críticos. Nós, a grama, queremos saber como podemos fazer para chegar ao fim do mês com as contas pagas.
Crise institucional produz insegurança. Insegurança jurídica prejudica investimentos. Menos investimento significa menos empresas, menos empregos e menos oportunidades. E quando política, economia e Justiça entram simultaneamente numa zona de incerteza, a conta raramente chega aos gabinetes de Brasília. Ela chega no nosso bolso.
Por isso, o que vimos ontem deveria servir de alerta aos próprios ministros. A grama não precisa saber quem venceu a discussão dentro do Supremo. Todo o povo brasileiro precisa que o Supremo deixe de ser um balcão de negócios dos familiares dos ministros. Precisamos de regras claras. Limites para os ministros. Quanto maior o poder de alguém, maior deveria ser sua responsabilidade para impedir que suas disputas atinjam aqueles que não possuem poder algum.
O brasileiro já enfrenta impostos, dívidas, juros, violência, saúde precária e problemas na educação. Não precisamos carregar também nas costas o peso das disputas daqueles que deveriam garantir a estabilidade ao país.
"Quando os elefantes brigam, quem mais sofre é a grama. Ontem, no Supremo, vimos elefantes discutindo quem manda, quem investiga e quem decide. Mas, lá embaixo, continuamos nós, os brasileiros, que não temos pedidos de vista, foro privilegiado nem gabinete. Temos apenas o boleto vencendo no fim do mês. Que os elefantes se lembrem: o poder que possuem existe para proteger a grama, e não para esmagá-la."