Na madrugada de 13 de agosto de 1961, Berlim acordou dividida. Primeiro vieram os arames farpados. Depois, concreto. Torres de vigilância. Soldados. E, finalmente, um muro que separaria durante mais de 28 anos dois modelos de sociedade. De um lado, Berlim Ocidental. Do outro, a Alemanha Oriental, integrada ao bloco socialista soviético.
Uma pergunta resume boa parte daquela História: Para que lado as pessoas tentavam fugir? O Muro não foi construído para impedir os ocidentais de entrar no socialismo. Foi construído para impedir que os alemães fugissem do socialismo. Pelo menos 136 pessoas morreram em incidentes relacionados à tentativa de cruzar o Muro de Berlim.
No dia 9 de novembro de 1989, tudo mudou. Depois de meses de manifestações, pressão popular e fuga de cidadãos do bloco oriental, os guardas acabaram abrindo as passagens. Martelos começaram a destruir aquilo que, durante décadas, parecia indestrutível. E o muro caiu. Dois anos depois, desapareceria a própria União Soviética.
Parecia que uma experiência histórica havia terminado. Mas aconteceu algo interessante do outro lado do Atlântico. Em 1990, apenas meses depois da queda do Muro, Lula e Fidel Castro deram origem ao Foro de São Paulo. O objetivo era reorganizar e articular a esquerda latino-americana diante daquele novo mundo pós-Muro de Berlim, e fortalecer projetos políticos de esquerda na região.
Partidos vinculados ao Foro chegaram, em diferentes períodos, aos governos de numerosos países latino-americanos. Basta ver os países governados — ou historicamente influenciados — pelo Foro de São Paulo na região: Cuba, Venezuela, Nicarágua, Argentina, entre outros.
Quando projetos políticos começam a enfraquecer a liberdade de imprensa, a propriedade privada, a segurança jurídica e a independência das instituições — além de defenderem pautas como o aborto e a defesa da bandidagem —, o problema deixa de ser simplesmente "esquerda ou direita". Passa a ser liberdade contra autoritarismo.
Não precisamos construir um muro de concreto para aprisionar uma sociedade. Existem outros muros:
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O muro da dependência do Estado.
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O muro da censura.
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O muro da insegurança jurídica.
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O muro da irresponsabilidade fiscal.
Por isso, nesta eleição, não basta perguntar se um candidato é de direita ou de esquerda. Pergunte:
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Ele respeita a liberdade?
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Respeita a propriedade privada?
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Respeita a alternância de poder?
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Respeita quem pensa diferente?
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Defende a imprensa livre quando a imprensa o critica?
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Aceita instituições independentes quando elas decidem contra seus interesses?
E, principalmente: qual é o limite que esse candidato reconhece para o próprio poder? Porque democracia não significa apenas chegar ao governo pelo voto. Significa aceitar que, um dia, você poderá perdê-lo pelo voto.
Em 1989, milhares de alemães não derrubaram apenas concreto. Derrubaram o símbolo de um Estado que havia decidido que sabia melhor do que seus próprios cidadãos onde eles deveriam viver. Trinta e sete anos depois, a América Latina ainda precisa aprender completamente essa lição.
Deixo para vocês uma última pergunta: Quem deve controlar a vida do cidadão — ele próprio ou o Estado?
O Muro de Berlim já respondeu. As pessoas não derrubaram o muro para entrar. Derrubaram para poder sair.
"O Muro de Berlim caiu quando milhões compreenderam que nenhuma promessa de igualdade justifica retirar a liberdade. Que o Brasil e a América Latina aprendam com a História: quando o Estado precisa levantar muros para manter seu projeto de pé, talvez seja o projeto — e não o cidadão — que esteja do lado errado da História."