1 - Texto Corrigido e Diagramado
Editorial 05/09/2026: “Enéas: 15 segundos que duraram décadas”
(Dedicado a Flavia Pais da Silva)
No dia 5 de setembro de 1938, nascia em Rio Branco, no Acre, um dos personagens mais singulares da política brasileira: Enéas Ferreira Carneiro. Órfão de pai ainda criança, conheceu a pobreza, trabalhou cedo e encontrou nos estudos o caminho para mudar sua vida. Ingressou na Escola de Saúde do Exército, formou-se em Medicina, especializou-se em cardiologia e tornou-se professor, estudioso também de matemática e física.
Mas o Brasil conheceria aquele homem principalmente por causa de 15 segundos. A barba marcante. A voz forte. Uma velocidade impressionante para falar. E o inesquecível: "Meu nome é Enéas!"
Muita gente ria. Programas humorísticos faziam imitações. Parte da imprensa tratava Enéas quase como uma excentricidade eleitoral. Talvez tenhamos cometido um erro: confundimos a forma com o conteúdo.
Isso não significa que Enéas estivesse certo em tudo. Não estava. Defendia um Estado forte e propostas econômicas extremamente intervencionistas. Algumas delas seriam incompatíveis com aquilo que muitos de nós defendemos hoje. Mas Enéas fazia perguntas que continuam assustadoramente atuais:
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Que projeto temos para o Brasil?
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Por que desperdiçamos tantos talentos?
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Por que nossa educação forma tão poucos jovens preparados para ciência, matemática e tecnologia?
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Por que um país tão rico convive permanentemente com problemas fiscais?
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Qual deve ser nossa estratégia de defesa?
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Como garantir soberania energética e tecnológica?
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E, principalmente: onde está o projeto de Brasil para daqui a vinte ou trinta anos?
Estamos em 2026 discutindo nomes. Lula. Flávio Bolsonaro. Zema. Caiado. Direita. Esquerda. Centro. Horizontal e vertical. Talvez Enéas interrompesse todos e perguntasse: "Tudo bem. Mas qual é o projeto para o Brasil?"
Educação. Segurança. Tecnologia. Energia. Defesa. Infraestrutura. Responsabilidade fiscal. Soberania. Podemos discordar das respostas que Enéas daria. Mas precisamos recuperar as perguntas.
E existe outra característica dele que faz falta na política contemporânea. Enéas parecia acreditar profundamente naquilo que dizia. Hoje, temos pesquisas qualitativas, marqueteiros, redes sociais e candidatos procurando descobrir qual frase produzirá mais aplausos. Enéas dizia aquilo em que acreditava, gostassem ou não.
Em 2002, aquele personagem tantas vezes ridicularizado tornou-se o deputado federal mais votado do Brasil naquela eleição, com mais de 1,5 milhão de votos. A caricatura havia sobrevivido aos caricaturistas. E talvez seja por isso que seus vídeos continuam circulando décadas depois. Porque continuamos discutindo os mesmos assuntos.
Não precisamos transformar Enéas em profeta. Precisamos fazer algo mais inteligente: escutá-lo novamente. Concordar onde fazia sentido. Discordar onde estava errado. E reconhecer a coragem de alguém que tentou pensar o Brasil além da próxima eleição.
Em outubro, quando escolhermos nossos representantes, talvez devêssemos fazer uma pergunta diferente. Não apenas: "O que este candidato promete para mim?" Mas: "Que Brasil este candidato pretende deixar para os meus filhos?"
Porque campanhas terminam. Mandatos terminam. Políticos passam. As consequências ficam.
"Podemos discordar de Enéas em muitas respostas. Talvez nosso grande erro tenha sido rir das perguntas. Deram a ele quinze segundos para falar e, décadas depois, algumas de suas perguntas ainda esperam uma resposta. Meu nome é Enéas! Que saudade de você, Enéas."