Dizem que, no interior de Pernambuco, apareceu uma figura curiosa e estranha. Ninguém sabe exatamente quando começou sua carreira. Alguns juram que faz décadas. Seu apelido? O Jegue de Garanhuns.

E, antes que alguém pense besteira, estou falando de um personagem absolutamente fictício. Qualquer semelhança com pessoas, discursos, viagens, promessas ou acontecimentos da vida real é mera coincidência ou responsabilidade da imaginação de quem está assistindo.

Nosso jegue nasceu com uma característica extraordinária: ele fala. E fala muito. E fala mal. Não respeita o plural; os verbos não são seu forte. Quando viaja, fala. Quando volta, fala. Quando perguntam, fala. (Salvo se perguntarem pelo filho ou pelo seu ex-chefe de gabinete). E quando ninguém pergunta... fala também.

Mas sua maior habilidade não é falar. É explicar por que aquilo que deu errado, na verdade, deu certo.

  • Se a dívida aumenta, ele explica que o importante é olhar para o futuro.

  • Se aparece déficit, diz que gastar é necessário.

  • Se alguém pergunta quem pagará a conta, ele olha seriamente e responde: "Os ricos".

O problema é que, algum tempo depois, chega o imposto na empresa, no supermercado, no combustível, no serviço... E o pobre começa a desconfiar que, talvez, tenha ficado rico sem perceber.

O Jegue de Garanhuns também possui uma relação complicada com a memória. Quando uma coisa boa aconteceu, ele lembra perfeitamente quem fez. Quando alguma coisa ruim aconteceu... a memória começa a falhar. Foi o antecessor. Foi o mercado. Foi o Congresso. Foi o Trump. Foi o clima. Foi alguém.

E existe outra característica fascinante. Ele adora viajar com a mulher — desde que não sejam eles a pagar a conta. Viaja tanto que os animais da fazenda começaram a suspeitar que o verdadeiro programa social deveria se chamar: “Meu Jegue, Minha Milha”.

Mas sejamos justos. O Jegue de Garanhuns possui uma qualidade política invejável: ele conhece sua plateia. Sabe contar histórias. Sabe despertar emoções. Sabe transformar problemas complexos em frases simples e promete sempre as mesmas coisas há 20 anos.

E aí está a parte séria desta brincadeira. Democracias não deveriam escolher seus governantes apenas pela capacidade de contar histórias. Precisam avaliar resultados. Não importa se o candidato é de Garanhuns, São Paulo, Minas, Rio ou qualquer outro lugar. Pergunte:

  • A dívida aumentou ou diminuiu?

  • As contas estão equilibradas?

  • A segurança melhorou?

  • A educação avançou?

  • A vida ficou mais fácil para quem trabalha e produz?

Porque política não deveria ser concurso de narrativa. Deveria ser prestação de contas. E, neste período eleitoral, aparecerão muitos personagens tentando convencer você de que são garanhões. Escute todos. Mas, antes de acreditar, olhe os resultados.

Porque a propaganda consegue colocar uma sela bonita. O marketing consegue produzir uma bela fotografia. O discurso consegue até convencer muita gente de que um jegue é um cavalo de corrida. Mas, quando chega a hora de correr, não existe narrativa capaz de esconder quem realmente consegue chegar à frente.

"Na política, não escolha pelo relincho, pela sela, nem pela história que contam sobre o animal. Escolha pelos resultados, porque, depois da eleição, quem terá de carregar o fardo do erro será você."

(Sugestão de Paulo Roberto Cardoso)