Hoje é um dia para comemorar. Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente de Lula. Os dois disputarão o segundo turno. E a pergunta que não quer calar: o que aconteceu?

Nenhuma urna explica a motivação de cada eleitor. Portanto, seria incorreto afirmar que 56 milhões de brasileiros votaram por uma única razão. Olhando para os programas oficiais registrados no TSE, é fácil perceber que os dois candidatos ofereceram projetos diferentes de país.

No campo econômico:

  • Lula propõe a continuidade do arcabouço fiscal, o investimento público como instrumento de desenvolvimento, o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil, a valorização do salário mínimo, a ampliação de políticas sociais e a redução da jornada de trabalho para 40 horas, com o fim da escala 6x1.

  • Flávio Bolsonaro apresentou outro caminho. Seu programa se define expressamente como “liberal, conservador e reformista”. Propõe um “tesouraço” no Estado, redução de pelo menos dez ministérios, diminuição de cargos comissionados, combate a supersalários, nova regra fiscal, redução de impostos, revisão da reforma tributária, privatizações e concessões, além da expansão da liberdade econômica.

Não é uma diferença cosmética. É uma diferença de concepção sobre o tamanho e o papel do Estado.

Na segurança, também existem diferenças profundas:

  • O programa de Lula enfatiza a inteligência policial, a asfixia financeira do crime organizado, o controle de armas e a criação de um Ministério da Segurança Pública — ou seja, mais um ministério.

  • O programa de Flávio adota propostas mais punitivas e também coloca no centro questões institucionais, como limites entre os Poderes e liberdade de expressão. Entre suas propostas está a responsabilização de adolescentes a partir dos 14 anos em crimes graves.

Agora, comparemos isso com os temas que marcaram a eleição. Segundo a agência Reuters, custo de vida, corrupção e criminalidade estiveram entre as grandes preocupações da campanha. E Flávio terminou o primeiro turno aproximadamente dois pontos à frente de Lula, contrariando pesquisas que indicavam o petista na liderança.

Isso não demonstra que todos os seus eleitores compraram integralmente seu programa. Mas demonstra que a proposta representada por Flávio recebeu mais votos no primeiro turno do que a proposta representada por Lula.

E, hoje de manhã, apareceu outro termômetro: o financeiro. Antes mesmo da abertura do mercado brasileiro, os ativos negociados no exterior reagiram fortemente. O ETF MSCI Brazil, negociado em Frankfurt, chegou a subir mais de 14%, enquanto ações brasileiras negociadas fora do país também avançaram. Analistas projetam valorização dos ativos brasileiros, fortalecimento do real e queda dos juros futuros, associando a reação às expectativas de ajuste fiscal, privatizações e redução de impostos presentes na agenda de Flávio.

Com a dívida pública próxima de 83% do PIB, os dois programas (do PT e do PL) ainda deixam questões importantes sobre como realizar o ajuste fiscal necessário.

O Brasil ainda terá um segundo turno. Mas a agenda conservadora e liberal demonstrou enorme força eleitoral e chega à reta final respaldada por quase metade dos votos válidos do primeiro turno. Talvez o Brasil esteja diante de uma nova etapa conservadora. Quem decidirá isso serão os brasileiros nas urnas.

"O primeiro turno não escolheu o próximo presidente. Mas deixou um recado impossível de esconder: mais de 56 milhões de brasileiros colocaram uma agenda declaradamente liberal e conservadora na primeira posição. Agora, no segundo turno, será o eleitor, e somente ele, quem decidirá se esse recado se transforma em governo, e, desta forma, se o Brasil poderá voltar ao normal."