Existem duas palavras que talvez resumam a gravidade institucional das mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro nos dias anteriores à sua prisão: “Conseguiu bloquear?”

Segundo o material divulgado da investigação, entre 11 e 17 de novembro de 2025, o dono do Banco Master manteve contatos com um número identificado como pertencente ao ministro Alexandre de Moraes. Primeiro, aparecem conversas para encontros. Vorcaro diz que iria a Brasília somente para vê-lo e “atualizar de tudo”. Depois, escreve que estariam “juntos sempre” e fala numa espécie de dívida de gratidão de sua família, funcionários e parceiros.

O problema fica muito mais sério quando as mensagens começam a tratar da investigação. Vorcaro pergunta se poderiam fazer alguma coisa. Pergunta se seria possível reverter a situação com “Paulo ou Andrei”, referências que a investigação relaciona ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Aqui a coisa ficou mais grave. Estamos falando de duas autoridades máximas da República. Depois vem um pedido ainda mais delicado: que Andrei fosse procurado para tentar adiar uma ação da Polícia Federal. E, no dia 17, horas antes de ser preso, Vorcaro pergunta novamente se havia novidades e se o interlocutor havia conseguido obter informação ou... “bloquear”.

Aqui precisamos separar indignação de julgamento. As respostas do ministro Alexandre de Moraes não aparecem no material conhecido. Não sabemos integralmente o que foi enviado ou respondido pelo ministro a um consultor de fraudadores. E exatamente por isso precisamos saber. Porque talvez a pergunta mais importante deste caso não seja o que Vorcaro pediu — isso nós já começamos a conhecer. A pergunta é: o que ele recebeu como resposta?

  • Houve contato do ministro Alexandre com a Polícia Federal?

  • Houve conversa do ministro com a PGR?

  • Alguém tentou adiar alguma operação?

  • Vorcaro recebeu informação privilegiada, como parece pelas mensagens?

  • Alguma providência foi tomada?

Se a resposta for não, que isso seja demonstrado e o ministro tenha sua posição esclarecida. Mas, se existiu qualquer interferência, precisamos saber exatamente qual.

Não estou condenando Alexandre de Moraes, nem Paulo Gonet, nem Andrei Rodrigues. Ao contrário. Defendo para eles aquilo que deveria valer para todos os brasileiros: presunção de inocência, contraditório, ampla defesa e devido processo legal. Mas, justamente porque estamos falando de um ministro do Supremo, do procurador-geral e do diretor da Polícia Federal, é que a exigência institucional precisa ser máxima.

Quanto maior o poder, maior deve ser a transparência. Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues devem se afastar de qualquer atuação relacionada ao caso enquanto esses fatos são esclarecidos. Não como admissão de culpa, mas como proteção à investigação e à própria credibilidade do Supremo. Porque nenhuma democracia saudável pode aceitar que dúvidas dessa dimensão permaneçam sem resposta simplesmente porque envolvem alguém poderoso.

A sociedade continua aguardando alguma declaração da OAB e do presidente Lula.

"Vorcaro perguntou: ‘Conseguiu bloquear?’. O Brasil agora precisa fazer outra pergunta: bloquear o quê, como e por quem? Que a investigação responda, com provas, devido processo legal e sem privilégios. Porque Justiça que vale apenas para alguns não é Justiça."