Há frases que, quando pronunciadas por um presidente da República, pesam muito mais do que quando ditas por qualquer cidadão. Lula, falando sobre os garis, disse que aquela seria uma “profissão muito pobre” e que não seria uma profissão que desse orgulho. Relacionou ainda esse trabalho às pessoas que não tiveram oportunidade de estudar.
Não é a primeira vez que Lula fala desrespeitosamente de uma profissão popular. No passado, afirmou que “nenhuma mulher quer namorar um ajudante geral”.
Essas falas incomodaram profundamente. Porque não existe pobreza em trabalhar honestamente. Pode existir salário baixo. Pode existir falta de oportunidade. Pode existir trabalho extremamente duro. Mas um homem ou uma mulher que acorda de madrugada, enfrenta chuva, sol, sujeira e risco para sustentar dignamente sua família não exerce uma profissão sem orgulho. Ao contrário.
Talvez exista mais dignidade em muitas dessas mãos calejadas do que em algumas mãos perfumadas que nunca produziram nada. O mesmo vale para o ajudante de pedreiro. Aquele que mistura o cimento, carrega o tijolo e levanta paredes talvez não tenha um diploma pendurado na sala. Mas ajudou a construir a sala onde o diploma de alguém será pendurado.
Lula foi infeliz ao proferir essas afirmações. Pobre, no sentido econômico, é aquele que possui insuficiência de recursos para satisfazer adequadamente suas necessidades básicas. Mas existem outras pobrezas que não aparecem no extrato bancário:
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A pobreza de conhecimento e habilidades.
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A pobreza de relacionamentos: gente cercada de patrimônio, mas absolutamente sozinha.
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A pobreza de inteligência: não necessariamente aquela medida por um teste, mas a incapacidade de ouvir, refletir, reconhecer erros e aprender.
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A pobreza de espírito: para aqueles que creem, é viver sem Deus, sem transcendência, sem compreender que nossa existência precisa significar alguma coisa além de acumular bens, poder ou reconhecimento.
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A pobreza de valores: uma pobreza especialmente grave na vida pública. A pobreza da palavra empenhada e depois esquecida. A pobreza de prometer durante a campanha aquilo que não se pretende cumprir no governo. A pobreza de defender determinado princípio quando interessa e abandoná-lo quando passa a incomodar.
Essa pobreza deveria preocupar muito mais um país do que a profissão escrita na carteira de trabalho.
Presidente Lula, com todo o respeito que merece o cargo que o senhor ocupa: ser gari é motivo de orgulho. A maioria dos garis tem uma frequência escolar maior que a sua. Ser pedreiro é motivo de orgulho. Ser ajudante de pedreiro é motivo de orgulho. Ser motorista, empregada doméstica, agricultor, mecânico ou vendedor é motivo de orgulho. Desde que seja trabalho honesto.
Não é justo menosprezar trabalhos honestos e enaltecer a bandidagem, votando contra o aumento de pena para delinquentes.
Devemos construir um país onde o filho do médico, ao encontrar um gari, compreenda que está diante de alguém que merece exatamente a mesma dignidade humana que seu pai. Uma sociedade verdadeiramente rica não é aquela em que todos possuem diploma. É aquela em que nenhuma pessoa honesta precisa baixar a cabeça para dizer como ganha o próprio pão.
"Pobre não é quem trabalha recolhendo o lixo das nossas ruas ou carregando tijolos numa construção. A pior pobreza é aquela que nenhum salário consegue esconder: a pobreza de conhecimento, de espírito, de palavra e, principalmente, de valores. Trabalho honesto não empobrece ninguém. Ao contrário: dignifica. Entendo que isso seja difícil de ser compreendido por alguém que teve tão pouca frequência escolar como o senhor."